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Efusões pleurais em gatos
M.V., Doutor: Heloisa Justen Moreira de Souza
Faculdade de Veterinária da UFRRJ - Seropédica RJ
E-mail: justen@centroin.com.br
A pleura é uma membrana microscópica de origem
mesotelial. O mediastino, parede torácica e diafragma são revestidos
pela pleura parietal. Os pulmões e suas fissuras são revestidos
pela pleura visceral. O espaço potencial entre a pleura parietal e
visceral é conhecido como cavidade ou espaço pleural.
Nos gatos, independente da causa, a presença de acúmulo
anormal de líquido no espaço pleural requer uma investigação
minuciosa, pois significa que exista algum tipo de afecção grave
que está colocando em risco a vida do animal. A efusão pleural
nunca é um diagnóstico final e sim um sinal clínico,
que com a cronicidade resultará na diminuição progressiva
da expansão pulmonar, levando a hipoventilação, hipóxia
e até a morte.
Nos gatos hígidos, o espaço pleural contém
uns poucos mililitros de líquido seroso, que age como lubrificante,
facilitando o deslizamento da pleura visceral sobre a pleura parietal durante
os movimentos respiratórios. Este líquido movimenta-se de um
hemitórax para o outro devido às fenestrações
na pleura parietal mediastinal, explicando, em parte, o porquê das efusões
pleurais serem, na maioria das vezes, bilaterais.
A presença de líquido pleural indica que
um ou mais fatores que controlam a dinâmica do líquido pleural
foram alterados.
O histórico e os sinais clínicos associados
à efusão pleural podem variar bastante, estando na dependência
da etiopatogenia do processo, no volume e rapidez do acúmulo do líquido
pleural.
Os primeiros sinais clínicos são imperceptíveis
ao proprietário. O gato apresenta uma grande capacidade de reserva
respiratória e uma habilidade em lidar com o acúmulo de líquido,
limitando a sua própria atividade física, compensando desta
forma a presença da efusão pleural. Num estágio mais
avançado da enfermidade, os proprietários relatam como queixas
principais os episódios de depressão, anorexia, perda de peso
progressiva, intolerância ao exercício, tosse e dificuldade respiratória.
Nos casos crônicos onde a reserva respiratória dos animais já
se encontra no seu limite, torna-se prioritário uma manipulação
cautelosa do gato, pois este pode vir a óbito durante o exame físico.
No exame físico, a dispnéia inspiratória
é o sinal clínico mais comum. Os animais encontram-se freqüentemente
em decúbito esternal com os membros torácicos em abdução.
Os gatos apresentam expressões faciais de ansiedade e dificuldade em
expandir os pulmões. Alguns felinos respiram com a boca aberta, o que
não é comum para a espécie. Na maioria das vezes, observa-se
ausência de secreção oronasal.
Na auscultação torácica, os sons
cardíacos estão abafados e os sons respiratórios encontram-se
aumentados dorsalmente e diminuídos ventralmente. A taquipnéia,
a cianose ou a palidez de mucosas, a desidratação e a temperatura
anormal podem estar presentes.
O reconhecimento da efusão pleural começa
com os achados do exame físico (inspeção e auscultação)
e é estabelecido pelo estudo radiográfico da cavidade torácica
ou pela toracocentese. Exames complementares são fundamentais para
determinar a causa da efusão pleural.
Nos casos de instabilidade respiratória ou hipoventilação
grave, a toracocentese torna-se imediatamente necessária, com finalidade
terapêutica. A remoção de pequenas quantidades de fluido
melhora significativamente a capacidade ventilatória do gato, permitindo
um melhor manejo do paciente durante os procedimentos radiográficos.
As radiografias obtidas com os animais nas posições
laterais em estação ou na posição ventrodorsal
ortostática são mais confortáveis para os gatos severamente
dispnéicos. São necessários, pelo menos, 50 mililitros
de efusão para serem observados através do exame radiográfico.
A presença de grandes quantidades de líquido no espaço
pleural leva a sinais radiológicos mais acentuados. Nas efusões
pleurais bilaterais, os achados radiográficos na posição
ventrodorsal ortostática (animal mantido em posição bipedal)
demonstram radiopacidade generalizada do tórax, com a presença
do líquido nos dois hemitórax ocluindo a silhueta cardíaca.
Nota-se a retração dos pulmões com visualização
do espaço pleural e arredondamento das bordas pulmonares nos ângulos
costofrênicos. O líquido (rico em fibrina) pode estar encapsulado
por aderências fibrinosas ou fibrose, produzindo sinais radiográficos
unilaterais, sendo também denominado de efusão não gravitacional.
Os achados radiográficos nas posições laterais em estação
revelam a elevação da traquéia, o colapso dos lobos pulmonares
craniais e médio e o deslocamento dorsocaudal dos lobos caudais. Nesta
avaliação evidenciam-se a linha do nível hidro-aéreo
e as fissuras interlobares bem distintas, principalmente após a drenagem
de determinadas quantidades de fluido pleural.
A avaliação ultra-sonográfica deve
ser realizada, preferencialmente, antes da remoção total do
líquido, pois este atua como uma janela acústica realçando
a visualização das estruturas torácicas. De um modo em
geral, o líquido pleural aparece como um espaço anecóico
ou hipoanecóico entre a parede torácica ou diafragma e o pulmão.
Este exame auxilia também na detecção das possíveis
causas como massas mediastinais, torção de lobos pulmonares,
anormalidades cardíacas e ruptura diafragmática.
A toracocentese deve ser efetuada para viabilizar a colheita de amostras do líquido para análise. Visto que todos os líquidos pleurais (sangue, exsudatos e transudatos) são indistinguíveis nos achados radiográficos. Além disso, a remoção do líquido melhora a visualização radiográfica dos lobos pulmonares, coração e do mediastino, bem como propicia alívio da dispnéia associada. O material necessário para a realização deste procedimento é simples e de fácil aquisição. Emprega-se um "scalp" 19 G a 23 G ou um cateter, que é acoplado a uma válvula de três vias e esta, a uma seringa de dez mililitros. O uso do cateter de calibre 18 G a 20 G é preferível ao uso de uma agulha, pois diminui o risco de laceração aos pulmões ou aos grandes vasos.
A escolha do local de punção na cavidade torácica é baseada no perfil radiográfico do hemitórax comprometido. Nas efusões bilaterais, dá-se preferência ao hemitórax esquerdo. O gato deve estar posicionado com os membros pélvicos sobre a mesa e erguido pelos membros torácicos. A toracocentese é conduzida de maneira asséptica, fazendo-se a tricotomia e anti-sepsia do 7o ou 8 o espaço intercostal, abaixo da junção costocondral, região escolhida para a realização da punção. A agulha deve ser introduzida num ângulo de 45° com a parede torácica, com o bisel voltado para o animal, evitando-se a laceração pulmonar. O local da punção deve ser no meio do espaço intercostal, para prevenir traumas aos vasos e nervos intercostais que cursam próximo à borda posterior da costela.Colhe-se um volume total de cinco a dez mililitros do líquido pleural, para a realização de quatro a seis esfregaços diretos, que são corados pelas colorações de Gram e Wright. Deste líquido, dois a três mililitros são mantidos em uma seringa estéril, sem ar e com uma borracha na ponta da agulha (se não houver meio de transporte próprio para cultura de bactérias anaeróbicas). Um "swab" estéril é utilizado para cultura de bactérias aeróbicas. A análise do líquido pleural deve incluir as características físicas e químicas, tais como: volume, cor, transparência, presença de fibrina, odor, concentração protéica. Colocam-se três a cinco mililitros do líquido num tubo com anticoagulante (EDTA) para realização da contagem total de células nucleadas, da mensuração da gravidade específica, da concentração das proteínas totais e da avaliação citológica. São mantidos três mililitros de líquido num tubo seco, para análise bioquímica e, principalmente, quando houver suspeita de quilotórax para determina as mensurações de triglicerídeos e colesterol.
Quadro 1: Guia para a classificação das efusões pleurais em felinos
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Transudato
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Transudato modificado
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Exsudato não séptico
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Exsudato séptico pio/otórax
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Quilotórax
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Hemotórax
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| Cor | Incolor a amarelo pálido | Amarelo ou rosa | Amarelo ou rosa | Amarelo a marrom | Leitoso | Vermelho |
| Turbidade | Claro | Claro a nebuloso | Claro a nebuloso | Nebuloso a opaco | Opaco | Opaco |
| Proteína | <2,5 g/dL | 2,5 a 5,0 g/dL | 2,5 a 6,0 g/dL PIF: 3,5 a 8,5 |
3,0 a 7,0 g/dL | 2,5 a 6,0 g/dL | >3,0 g/dL |
| Fibrina |
ausente
|
ausente
|
presente
|
presente
|
variável
|
presente
|
|
Triglicerídeos |
ausente
|
ausente
|
ausente
|
ausente
|
presente
|
ausente
|
| Bactérias |
ausente
|
ausente
|
ausente
|
presente
|
ausente
|
ausente
|
| Células nucleadas |
<1.000
|
1.000 a 15.000
LSA: 1.000 a 100.000 |
1.000 a 20.000
LSA: 1.000 a 100.000 |
5.000 a 300.000
|
5.00 a 20.000
|
Similar ao sangue periférico
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| Análise citológica |
Maioria células mesoteliais
|
Maioria macrófagos, céls
mesoteliaiss; poucos *PMN; céls neoplásicas
|
Maioria *PMN não degenerados
e macrófagos; céls neoplásicas
|
Maioria *PMN degenerados e macrófagos
|
Linfócitos, *PMN e macrófagos
em proporções variadas
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Maioria hemácias; algunas
leucócitos
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* PMN- leucócitos polimorfonucleares
Quadro 2: Principais causas de efusão pleural em felinos
| # Transudato puro Hipoalbuminemia Doenças hepáticas Enteropatias com perda protéica Glomerulopatias Doença cardíaca precoce # Exsudato não séptico |
# Quilotórax Obstrução ou ruptura do ducto torácico Insuficiência cardíaca congestiva Dirofilária Neoplasia (linfoma mediastinal) Idiopática # Hemotórax # Exsudato séptico |
|
# Exsudato séptico
Pleurite séptica Piotórax Infecção com disseminação linfática ou hematógena Feridas por mordeduras Rupturas de estruturas mediastinais Extensão de pneumonia |
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