CONSTIPAÇÃO E OBSTIPAÇÃO EM FELINOS
M.V., Doutor: Heloisa Justen Moreira de Souza
Faculdade de Veterinária da UFRRJ - Seropédica RJ
Email: justen@centroin.com.br
As principais funções do cólon são
a extração de água e eletrólitos do bolo fecal,
e a manutenção de uma microflora intestinal. O cólon
apresenta musculatura lisa longitudinal e circular, ambas responsáveis
pela motilidade do órgão, que é efetuada por três
importantes ondas ou movimentos: movimento de segmentação -
responsável pela mistura do bolo fecal, favorecendo a absorção
de água pelo contato do bolo fecal com as criptas intestinais; movimento
de propulsão ou peristáltico - movimento impulsionador do alimento
em sentido aboral; movimento ou ondas de contração ou migração
gigantes - movimento impulsionador do bolo fecal de forma mais rápida,
abrangendo uma maior distância, que é realizado poucas vezes
ao dia. Estas ondas de contração ou migração gigantes
são freqüentes após as refeições, principalmente,
em virtude do reflexo gastrocólico.
Um equilíbrio entre a atividade simpática e parassimpática
estabelece ou regula a influência neurogênica sobre a motilidade.
Diversos fatores hormonais e metabólicos exercem também influência
sobre a motilidade do cólon. Desta forma, a motilidade colônica
pode ser afetada por estímulos locais e/ou sistêmicos (Quadro
1).
A constipação definitivamente não é
uma doença, mas sim um sinal de diversas doenças. É definida
como a infreqüência ou a dificuldade na passagem das fezes, com
sua retenção e endurecimento exacerbado destas entre o cólon
e o reto.
A retenção prolongada das fezes no cólon
leva a um aumento na absorção de água na massa fecal,
o que promove maior endurecimento ou impactação das fezes, gerando
outros sintomas associados ao quadro de constipação como a disquesia
(evacuação dificultosa com muita dor), o tenesmo (retesamento
doloroso dos grupos musculares envolvidos na defecação, levando
a um esforço ineficaz para defecar com pouca ou nenhuma emissão
de massa fecal) e o megacólon (condição de extrema dilatação
e hipertrofia do cólon).
A constipação, quando não diagnosticada
em tempo hábil e tratada adequadamente, pode assumir uma gradação,
onde um quadro marcante que surge em grande parte dos casos é a obstipação.
O megacólon é definido como a distensão grosseira do
diâmetro do intestino grosso, determinando grande comprometimento da
motilidade intestinal, sendo classificado como congênito; idiopático
e adquirido, podendo ocorrer por alterações funcionais ou mecânicas.
Quadro 1
Causas de Constipação em gatos
| Tipos | Causas |
| Dietética | Ingestão de corpos estranhos que se misturam nas fezes, tais como pêlos, ossos, fibras vegetais, entre outros; |
| Ambiental e comportamental | Vasilha sanitária suja, vida sedentária, hospitalização, mudança brusca de ambiente; |
| Defecação dolorosa | Desordens ano-retais, abscesso perianal, diminuição da luz anal por tumor ou corpo estranho, glândula perianal abscedada ou impactada, pseudocoproestase, desordens ortopédicas, patologias ou injúrias no cordão espinhal, injúrias nos ossos pélvicos, ou mesmo dos membros pélvicos; |
| Cólon obstrutivo | Lesões extraluminal: fratura ou má união
pélvica, colapso pélvico devido ao hiperparatiroidismo secundário
nutricional, pseudocoproestase, hérnia perianal (rara) Lesão intraluminal: estreitamento da luz do cólon e reto devido a tumores como o linfossarcoma, ou cporpos estranhos |
| Neuromuscular | Doença instalada no cordão espinhal, principalmente na região lombo-sacra,injúria bilateral dos nervos pélvicos.Síndrome de Key-Gaskell. Megacólon Idiopático. |
| Anormalidade hídrica e eletrolíica | Desidratação; hipokaliemia |
| Drogas indutoras | Diuréticos, antihistamínico,sulfato de bário, hidróxido de alumínio, opióides, anticolinérgicos |
Tratamento Clínico
O tratamento clínico da constipação objetiva
a adoção de medidas que visem corrigir a causa primária,
com atenção especial nos problemas de manejo, comportamentais
e ambientais, associado ao emprego de dietas que contenham muito líquido
e, principalmente, alimentos próprios para gatos ricos em fibras indigeríveis,
para alterar o peristaltismo e levar a uma reeducação intestinal.
As substâncias laxativas ajudam na eliminação das fezes
nos casos de constipação leve a moderada, enquanto que as soluções
de enemas são usadas para amaciar as fezes duras e impactadas e promover
o esvaziamento do cólon, nas constipações severas e nas
obstipações.
As drogas cisaprida, ranitidina e nizatidina são agentes procinéticos
gastrintestinais, aumentando e coordenando a motilidade propulsora gastrintestinal,
impedindo assim a estase e o refluxo. A cisaprida estimula a contração
da musculatura lisa longitudinal e circular das porções proximais
e distais do cólon (Quadro2).
Quadro2
Tratamento Clínico da Constipação em gatos
|
Tratamento
|
Fármaco
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Dosagem
|
| Enemas | ||
| Água morna com ou sem sabão | 5ml/kg | |
| Solução salina isotônica com ou sem sabão | 5ml/kg | |
| Óleo mineral | Nujol® | 5,0-10ml/gato |
| Supositório retal | ||
| Glicerina | Supositório de glicerina infantil Granado® | 1-2 supositórios |
| Laxativos formadores de volume | ||
| Fibra de trigo | Fibracap® | 1 colher de sopa / dia |
| Psyllium | Metamucil® | 1-5 colheres de chá /dia |
| Laxativo lubrificante | ||
| Petrolatum | Hairball® Laxatone® pasta | 1,0 -2,0 cm/ dia por via oral |
| Laxativo emoliente | ||
| Dioctil sulfosuccinato de sódio | Humectol® | 50mg/dia por via oral |
| Laxativo Osmóticos | ||
| Lactose | Leite | Adicionar à dieta até obter o efeito desejado |
| Lactulose | Lactulona® | 0,5ml/kg 2-3vezes/dia por via oral |
| Laxativo Estimulante | ||
| Bisacodil | Dulcolax® | 5,0mg/dia via oral |
| Agentes Prócinéticos | ||
| Cisaprida | Prepulside® | Gatos com menos de 5,0kg: 2,5mg 3 vezes/dia via oral. Gatos com 5,0 a 7,3 kg: 5,0mg 3 vezes/dia via oral. Gatos com mais de 7,3kg: 7,5mg 3 vezes/dia via oral. |
| Ranitidina | Antak xarope® | 1,0-2,0 mg/kg 2-3 vezes/dia via oral |
| Nizatidina | Axid® | 2,5-5,0mg/kg24horas via oral |
Tratamento Cirúrgico
A subcolectomia é um procedimento cirúrgico, que têm sido empregado em gatos com sucesso nestes últimos 15 anos. Verifica-se uma nítida melhora na qualidade de vida dos animais que sofrem de constipação severa e crônica refratária a terapia medicamentosa e alimentar. Este procedimento cirúrgico consiste na remoção de 80 a 95% do cólon, preservando ou não a válvula íleocecocólica.
A subcolectomia parcial tem como via de acesso uma laparotomia mediana reto-umbilical. O cólon é exteriorizado e os vasos mesentéricos caudal e cólico são isolados e ligados com fio cat-gut 3-0 e trasectados para liberar o segmento do cólon que vai ser removido. Imediatamente após a ligadura dos vasos mesentéricos, dois pares de clamps intestinais são posicionados transversalmente ao cólon, um par antes e outro após a massa fecal impactada. A válvula ileocecocolica é mantida, e um pequeno segmento de um a dois centímetro do cólon ascendente é preservado, como também do cólon descendente. No cólon é realizada uma ordenha manual da massa fecal, que é afastada cerca de 5 a 8 cm dos clamps intestinais. O cólon é trasectado com o uso de uma lâmina de bisturi entre as pinças. A porção seccionada do cólon é removida levando consigo um par de clamps intestinais. A disparidade do lúmen intestinal nas bocas anastomóticas é corrigida com a sutura parcial da maior boca anastomótica usando pontos simples separados, sutura do 'tipo crushing", com fio de polipropileno 4-0. O esmagamento das camadas mucosa, submucosa, muscular e serosa deve ser evitado. É feita a anastomose término-terminal com a aproximação das extremidades anastomóticas, logo após a correção da diferença entre os lumens, atravésda utilização do mesmo tipo de sutura e fio. Deve-se ter o cuidado de não tracionar excessivamente os pontos da sutura para não gerar isquemia no local. Uma porção do epíplon é utilizada para revestir a superfície intestinal anastomosada empregando vários pontos simples separados com fio cat-gut 3-0. No pós-operatório imediato da subcolectomia parcial, o felino pode apresentar tenesmo num período de 3 a 5 dias e eventualmente pode haver presença de fezes líquidas. Ë indicado uma dieta rica em fibras indigeríveis.
A antibióticoterapia profilática pré-operatória deve ser utilizada para reduzir a contaminação durante o ato cirúrgico, associada aos cuidados no trans-operatório como a troca de luva e material cirúrgico contaminado no fechamento da cavidade abdominal.