Técnicas de alimentaçao enteral en gatos

 

 

M.V., Doutor: Heloisa Justen Moreira de Souza
Faculdade de Veterinária da UFRRJ - Seropédica RJ
Email: justen@centroin.com.br

Pacientes felinos submetidos a qualquer tipo de estresse ou portadores de alguma enfermidade, comumente apresentam quadro de anorexia, necessitando de suporte nutricional.
As doenças hepáticas felinas como a lipidose e a colangio-hepatite são indicativos clínicos mais freqüentes para a opção pelo suporte nutricional enteral, seguindo-se neoplasias, insuficiência renal, traumas e doenças da cavidade oral e do trato respiratório.
Após a análise criteriosa do estado do paciente e da gravidade do quadro, deve-se determinar as necessidades nutricionais do gato. Essa determinação é relativamente simples de ser formulada em animais sadios, uma vez que seu cálculo é baseado no peso corporal, obtendo-se assim, o requerimento energético basal (REB), em kcal / dia (Quadro 1).

Quadro 1: Cálculo do requerimento energético basal (REB) diário do gato
Gato com peso corporal menor que 2 kg

REB = 70. (peso corporal em kg)0.75
(Kcal/dia)
Gato com peso igual ou maior que 2 kg

REB = 30. (peso corporal em kg) + 70
(Kcal/dia)

A determinação das necessidades nutricionais de gatos que sofreram injúrias pode ser mais difícil. Nos estados catabólicos graves, como nas septicemias e nas neoplasias, pode haver um aumento de 50% do requerimento energético. Desta forma, o cálculo do requerimento energético basal diário é multiplicado por um fator, auxiliando na determinação das necessidades inerentes a cada processo (Quadro 2).

Quadro 2: Cálculo do requerimento energético para manutenção (REM)
Classificação da afecção
Fator X Cálculo do requerimento diário Kcal/dia
Descanso em gaiola
1,00 - 1.25 x REB
Trauma, neoplasia
1,35 - 1.50 x REB
Septicemia
1,50 - 1.70 x REB
Queimaduras graves
1,70 - 2.00 x REB
(modificado por Donohue)

A dieta para a alimentação enteral involuntária pode ser constituída de preparações caseiras ou alimento infantil para bebê, pois representam alternativas de fácil obtenção, palatáveis e pouco onerosas. Contudo, essas dietas não são nutritivas para gatos doentes, pois se trata de alimentos com baixos índices calóricos e protéicos 28. As rações úmidas comercialmente disponíveis hipercalóricas denominadas de recuperação (Hill's Prescripition Diet Feline/Canine a/d , Kolynos do Brasil, São Paulo, SP; Eukanuba Maximum Calorie -Feline, Iams do Brasil, São Paulo, SP) são ideais na terapia nutricional dos felinos enfermos com debilidade, assim como, para aqueles que apresentam caquexia e anorexia. Essas dietas possuem alta porcentagem de calorias sob a forma de proteínas e elevada densidade energética (Quadro 3).

Quadro 3: Dietas de recuperação
Produto comercial
Conteúdo calórico por mL
Hill's Prescripition Diet Feline/Canine a/d
1,3 Kcal/mL
Feline CV (CNM)
1,43 Kcal/mL
Eukanuba Maximum Calorie -Feline
2,14Kcal/mL

O volume da dieta comercial necessário é calculado levando em consideração o requerimento energético de manutenção (REM) do felino e a densidade calórica presente na dieta, como segue a fórmula: volume da dieta comercial/ml/dia = REM (kcal/dia) / fórmula (kcal/mL).

Exemplo: Gata anorética, pesando 3,0 kg, com oito anos de idade, portadora de adenocarcinama mamário. Qual o seu requerimento energético de manutenção e qual a quantidade (volume) da dieta a ser administrada por dia?
REB = 30. (peso corporal em kg) + 70
REB = 30. (3,0) + 70
REB = 160 Kcal/dia
Adenocarcinama mamário: Fator = 1,35
REM =Fator X REB
REM = 1,35 X160 Kcal/dia
REM= 216 Kcal/dia
Hill's Prescripition Diet Feline/Canine a/d =1,3 Kcal / mL
Volume da dieta comercial/ml/dia:
REM (kcal/dia) / fórmula (kcal/mL)=216/ 1,3 =166mL/dia

 

Recomenda-se dividir o volume total da dieta calculado, para que se possa administrada-lo duas a quatro vezes por dia. A dieta deve estar na temperatura corpórea (morna) ou ambiente e, de preferência, triturada com água ou solução isotônica de NaCL a 0,9%, facilitando a administração pela sonda.

COLOCAÇÃO DA SONDA VIA NASOESOFÁGICA

A colocação da sonda pela via nasoesofágica é o método mais indicado para gatos doentes que necessitem de suporte nutricional por período inferior a uma semana. Os nutrientes são administrados na porção distal do esôfago. As vantagens desta técnica são o baixo custo, a facilidade, simplicidade em realizar a técnica e a aceitação do paciente, no entanto o diâmetro estreito da sonda permite apenas a administração de dietas líquidas sem partículas, o que dificulta o suprimento calórico e protéico dos gatos debilitados e desnutridos. A sonda de alimentação nasoesofágica com 5 French de diâmetro, é inserida por um dos orifícios nasais, no sentido medioventral, após a anestesia tópica obtida com a instilação de duas ou três gotas de lidocaína a 2% (lidocaína sem vasoconstritor, solução injetável, Ariston, São Paulo, SP) na mucosa nasal. A extremidade da sonda deve atingir uma região imediatamente cranial ao cárdia, na altura das últimas costelas.
O posicionamento da sonda no esôfago deve ser confirmado com a injeção de pequena quantidade de soro fisiológico ou água estéril. Caso a inserção tenha sido feita equivocadamente na traquéia, o líquido injetado provocará tosse. A outra extremidade da sonda é dobrada por cima da face do animal, sendo suturada à pele com fio não absorvível ou fixada por meio de esparadrapo ou adesivo instantâneo (Super Bonder , Henkel Loctite, Itapeva, SP). A limpeza da sonda após a alimentação é necessária e pode ser feita com a injeção de 2 a 5 ml de água morna ou soro fisiológico. O uso de colar elizabetano é necessário a fim de evitar que o paciente retire a sonda. É aconselhável a permanência da sonda por somente duas semanas, quando deverá ser trocada para outra narina. As maiores vantagens são o baixo custo e a dispensa da anestesia geral. As complicações associadas com o uso de sonda de alimentação via nasoesofágica são o seu entupimento, a remoção pelo próprio animal, epífora, atraso no esvaziamento gástrico, aspiração, vômitos, diarréia, hipocalemia e moléstias nasais e faríngeas relacionadas à sua permanência prolongada.

COLOCAÇÃO DA SONDA ATRAVÉS DA ESOFAGOSTOMIA

A técnica de colocação da sonda através da via de esofagostomia é de fácil realização e confortável para o animal. A simplicidade do manejo da sonda e administração do alimento permite a cooperação dos proprietários, minimizando os custos de internação nas clínicas e hospitais veterinários. O procedimento para a colocação da sonda, com cerca de 12 a 14 French de diâmetro, requer anestesia dissociativa como a administração da associação de ketamina (Ketalar , Parke-Davis, São Paulo, SP) na dosagem de 2mg/kg e diazepam (Diazepam, Cristália, São Paulo, SP) na dosagem 0,2mg/kg, por via intravenosa. A sonda deve ser inserida através de uma incisão na área cervical esquerda, acima da veia jugular e atingir a parte média do esôfago, sendo essa distância medida previamente. A movimentação da sonda e a sua retirada pelo próprio animal são evitados com uma sutura e uma bandagem, que o prende à pele e à cabeça, respectivamente. A elevação dos membros anteriores do gato após a administração do alimento assegura a sua chegada ao estômago. A vantagem é o maior diâmetro da sonda que viabiliza a administração de uma maior quantidade maior de alimento. As complicações associadas à técnica de esofagostomia são a infecção do campo operatório, o edema de face por pressão exercida pela bandagem, a esofagite, a aspiração de alimento, bem como as obstruções das vias aéreas superiores, a disfagia, o vômito, com saída da sonda através da cavidade oral, a gastrite, as alterações em ramos nervosos locais e hemorragias causadas por lesões na artéria carótida ou jugular.

ADMINISTRAÇÃO DO ALIMENTO ATRAVÉS DA SONDA VIA GASTROSTOMIA

É considerada uma das formas mais efetivas de suporte nutricional em gatos. Consiste numa via bastante segura por proporcionar uma digestão eficiente. As funções do estômago de mistura, digestão e estocagem permanecem íntegras, além do que o diâmetro das sondas utilizadas permite a administração de alimentos mais consistentes e sob a forma polimérica (não dirigida). A melhor aceitação do paciente e do proprietário adicionada a facilidade de reiniciar a alimentação oral ou espontânea, mesmo com a permanência do tubo, representam vantagens consideráveis para instituir a alimentação enteral pela técnica de gastrostomia .
Os pacientes candidatos a esta terapia são aqueles acometidos por doenças orofaringianas ou distúrbios esofágicos. Assim como nos casos de lipidose hepática, esta via é também indicada a aqueles com anorexia resultante de distúrbio debilitante. Porém, sintomas de vômitos incoercíveis, desordens gastrintestinais, distúrbios neurológicos do esôfago e quadro de ascite contra-indicam o suporte nutricional pela via da gastrostomia.
Técnicas diversas para colocação da sonda têm sido propostas. Em virtude da variedade de indicações que sugerem esta via, elas visam reduzir o trauma cirúrgico e facilitar a introdução da sonda de alimentação. A sonda pode ser introduzida na parede gástrica através de laparotomia, ou através de gastrostomia percutânea pela técnica endoscópica, e mais recentemente, pela técnica de ELD.